sábado

punto de giro

ele faz cinema e ela vive num filme. 
ele filma as conversas. ela só fala nele.
corta.
ela quer ele. talvez ele não queira. talvez ela não saiba o que quer. mas que alguém precisa querer ela, precisa. porque a história deles imita um filme. e não pode ser o contrário.

quarta-feira

rara

limpo sapatos igual a relógio antigo. com um trapo sujo vou de leste a oeste. algumas vezes de norte a sul. e meus dentes também não me deixam mentir: não uso café só para pretear o couro, também é boca de pito. o cigarrinho é sagrado e eu não abro mão. de jeito nenhum, nem precisa inventar. sou fera em desculpas. aliás, se não fossem elas talvez eu aqui não estivesse. me serviram como cão guia. e um cão desses bravos. vacinado, vigilante e viciado. com dentes afiados e coração refilado. mas que não podia com as sombras. nem ele, nem eu. e foi isso que fudeu. não saia de noite, nem com lanterna. mas até entendo. porque também tenho medo. mas só de falar a gente atrai. por isso não digo três vezes. nunca. ou talvez depois. é que já acabou o descanso. lá vem outro freguês e preciso voltar.
adeus, Dara.

sexta-feira

inacredivível

digo de fato, sem beijo e sem abraço.
que as ondas me cortam como o fio de uma navalha.
enquanto a maré me leva para longe, longe.

...

quando a letra soou mais alto
os melhores anos da minha vida viajaram à cabo
mas não posso dizer que tão antes não fui como agora
la la le rê fui feliz até a lua

a lua que quiz ser luz para ser minha
e de tanto que quiz ser, deixou de me ver

e dito, e feito
aprovado pelo soldado
aquele que sofreu calado
nas mãos mais pesadas
não mais que as palavras
que soavam a cada tábua

terça-feira

calor, insônia e noite

a madrugada é inspiradora dos maiores feitos, dos piores planos e das mais loucas tentativas. é nela que o nada do ser entra em conflito e movimenta a manivela da oficina que o diabo se instala.

calor, insônia, noite. estes, separados, podem causar a náusea de um suor escorrido, o bocejo das olheiras mudas ou o estímulo do escuro que nada esconde. mas, juntos, podem ser um palco sem platéia daquilo que ao meio dia, você não faria. porres homéricos, conversas de botinas, pensamentos soltos, escritas em destino ou o encontro de um sentido para aquilo que nem existe.

a Lua faz parte dos bastidores destas insônias. talvez daí venha a simpatia pelo escuro que a acompanha, já que na sua condição de apaixonada pelo astro que traz as boas novas num raio e a dispensa em outro, prefere dividir em partes, em fases, a sua presença.

a hora do adeus é quando o vento balança a seda da cortina e não mais a noite se enquadra na janela. o calor e a insônia permanecem intactos, mas a noite começa a dar lugar a realidade. não me incomodo! pois a certeza de que outra virá, sem tardar, ou melhor, quando entardecer, é tão verdade quanto a que de que talvez eu não desfrute dela. mas a confiança de que ela virá, dia após dia, categoricamente, me concebe a permissão de me entregar ao pedido dos olhos.

quinta-feira

indeclarável

o pobre irmãode um dente torto e uma cor tição
se deu conta de ter uma mal feito
e o remorso no peito

sem riso, sem brilho
torturou seu espelho e expulsou o maldito
pois a espinha ainda esfria
quando a perna, aquela que jazia
perde o controle no escuro

ele só quer acordar direito
e sem sua sombra o acompanhar
reviver aquilo que escapou
e se perder por lá, mas não amanhã

já que os traços até agora eram perfeitos
sem lombadas ou esquinas
e talvez por isto e ainda mais
os seus olhos pesam e pesam.