Terça-feira
É o fim
Domingo
Saudogia
Tenho muitas, no plural mesmo: saudade do que vivo agora, porque por mais que eu queira, sei que não será para sempre. Saudade do que ainda está por vir, porque sonho tanto, e tanto, que tudo já existe de alguma forma, e não quero que nada acabe.
Saudade do que não vivi, sim, os outros 99%, aqueles que Marciano nos diz. É que sempre quero algo diferente, não é que o que existe me desagrada, é que eu gostaria de poder experimentar duas coisas ao mesmo tempo, talvez três ou quatro. Gostaria de estar aqui escrevendo e ao mesmo tempo na sala ouvindo Chico, bebendo uma dose, duas pedras de gelo e um cigarro na mão. Ou quem sabe estar na casa dos meus pais, falando de coisa nenhuma e rindo de nada demais.
Ah, que saudade, mas sem aquele papo da tenra infância ou da terra com palmeiras. Estas encontro com facilidade, é só procurar naquela gaveta cheia de vogal repetida. Hoje eu estou com saudades daqui, das letras preenchendo a página, em trebuchet 12, jogadas por mim, e das quais vou fazer meu ganha pão para depois encarar como circo.
Saudade de partir sabendo que vou voltar, mas não por agora. Ver, viver e ouvir tudo o que puder. E logo chegar, contar como foi e começar a sentir saudades.
Saudades de chegar até aqui, de não saber com terminar um devaneio, e de ao mesmo tempo ter algo em mente que me faça querer terminar.
E é claro, saudade de saber que poderei ler tudo amanhã, e lembrar de sentir saudade.
Quarta-feira
Certezas e acreditos
As duas únicas certezas que tenho são que da morte não escapo e de que o vinho é o elixir da vida. As outras coisas que acredito são meras percepções individualistas.
Para mim, cada um é cada um dependendo do lugar e tudo é uma coisa só, porém com cada macaco no seu galho e cada coador com o seu café. Mas para alguns, o que está ao redor é como um adendo do seu próprio ser, e talvez aí esteja à explicação para tanta mesquinharia e preocupações com a vida alheia.
Amargurados e babacas de plantão deveriam ser apresentados a felicidade pessoal. Algumas pequenas coisas como uma conversa jogada fora, uma gargalhada mais alta, um repetindo paço de dança, um copo de cerveja, uma noite estrelada, um bom vinho e um monte de outras coisas que compõem os momentos mais descalços e felizes de nossas vidas. Orgulham-se de não serem aquilo que, na verdade, dariam tudo para um único segundo ser.
Pobre deles e de nós que somos seus semelhantes. Pobre de quem compartilha desta mesma opinião e ao mesmo tempo veste a carapuça. Isto não é auto-ajuda barata ou um pensamento contido, mas como já dito, uma percepção de quem tenta enxergar do lado de fora algo de que também está incluído. Enfim, sem muito analisar, a gente aproveita para viver.
Terça-feira
Calor, Insônia e Noite
Calor, Insônia, Noite. Estes, separados, podem causar a náusea de um suor escorrido, o bocejo das olheiras mudas ou o estímulo do escuro que nada esconde. Mas, juntos, podem ser um palco sem platéia daquilo que ao meio dia, você não faria. Porres homéricos, conversas de botinas, pensamentos soltos, escritas em destino ou o encontro de um sentido para aquilo que nem existe.
A Lua, tão só, faz parte dos bastidores destas insônias. Talvez daí venha a simpatia pelo escuro que a acompanha, já que na sua condição de apaixonada pelo astro que traz as boas novas num raio e a dispensa em outro, prefere dividir em partes, em fases, a sua presença.
A hora do adeus é quando o vento balança a seda da cortina e não mais a noite se enquadra na janela. O calor e a insônia permanecem intactos, mas a noite começa a dar lugar a realidade. Não me incomodo! Pois a certeza de que outra virá, sem tardar, ou melhor, quando entardecer, é tão verdade quanto a que de que talvez eu não desfrute dela. Mas a confiança de que ela virá, dia após dia, categoricamente, me concebe a permissão de me entregar ao pedido dos olhos.
De tudo, percebo que o calor é sensação, a insônia uma permissão, e a noite é toda inspiração.
Quinta-feira
As meninas, o confesso
um crime proibido e porcamente omitido
sem escape, sem volta, imperdoável
tão vil e profano, que mesmo nunca descoberto
a pena será minha consciência
digo que ficou o dito pelo o que acredita
a sombra de uma dúvida, um devaneio torto
que nada encobre, nem mesmo o tempo
já que o que fiz com tanta veemência
e será avassalador nos piores sentidos
as meninas, as minhas, extrapolam
quando penso e quando lembro de tudo
mas não só elas, todo o meu corpo
da derme a saliva, que ficam quentes
transbordando uma culpa forjada pelas mãos
transformadas em desprezíveis criminosas
prefiria o deleite diário, noturno e solitário
do que perder-te das minhas meninas
porque de mim já faz parte
os pés, os pêlos, as pintas
as partes mais obscuras, rosadas e proibidas
mas que arrisquei por algo a mais e agora perdi
estas, ainda digo, já derramaram lágrimas
tantas que encheriam meu corpo e o seu, juntos
para que quando perdidos em um só
você não tenha outra escolha
e nem sequer queira outra, a não ser a mim
confesso ainda, sou seu por inteiro
e isto, acredite, é o maior dos meus segredos
encoberto por um nevoeiro turvo
que agora se transforma em gotas, muitas
que unidas lhe banharão friamente a espinha
e desconstruirão tudo o que fui um dia
entrego-me, assim não mais me verá
e nem eu quero te olhar outra vez
as certezas eram tão cinzas e friamente previsíveis
mas não me seguraram, nem me sucumbiram
o que me resta, daqui por diante
serão as lembranças e as noites
aquelas que nos apreciamos, sem nenhum toque
apenas pensamentos, num monólogo sombrio e feroz
que me virava os olhos, quando você se levantava e partia
para tão longe do meu corpo.
Indeclarável
delato, injúria, vergonha
fobia, culpa, desejo
maldade, remorso, mentira
o pobre irmão
de um dente torto e uma cor tição
se deu conta de ter uma mal feito
e o remorso no peito
sem riso, sem brilho
torturou seu espelho e expulsou o maldito
pois a espinha ainda esfria
quando a perna, aquela que jazia
perde o controle no escuro
ele só quer acordar direito
e sem sua sombra o acompanhar
reviver aquilo que escapou
e se perder por lá, mas não amanhã
já que os traços até agora eram perfeitos
sem lombadas ou esquinas
e talvez por isto e ainda mais
os seus olhos pesam e pesam.
Tempo é desperdício...
Nada disto faz sentido. Nem queijo com goiabada, nem café com rapadura. Tudo balela e borracha da grossa.
Por que diabos não tenho controle do meu próprio tempo?
Brigo como numa rinha com aquele imbecil do despertador! Já o fiz de Santo Antônio, de castigo, cabeça pra baixo. E até no meu maior ridículo, me vi na madruga, o despertando, como ele mesmo sempre faz.
Se o tempo urge, eu quero que agora gorjeie. Sempre gostei das cantarolas das andorinhas que papavam os capins na branda infância.
Desprezo o tempo, o vento e o lenço se o sono sonda a minha sombra. E ainda digo: farei greve do meu acordar sempre que me sentir assim.
Carneiros, pontos, números, carochinha, nunca fizeram parte do meu pensar. Tudo que quero é algo ante-tudo-isso.
Alguma horas é o que meus solilóquios reivindicam! Não a menos, mas sim a mais. E podemos negociar a domingueira, se é que me entende...
Enfim, de nada adianta gritar aos quatro sonos. O que me resta é dormir, acordar e dormir para poder acordar de novo.
